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17 de mai de 2010

VAI !

Vai! Vai! Vai! Vai! Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai! Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai! Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai! Dizer!

Canto de Osanha – Vinícius de Moraes


Acabo de saber que o primo da vizinha tirou a própria vida. “Coitado, também existia”, pensei, parafraseando Fernando Pessoa no Livro do Desassossego. Por que uma pessoa comete tal ato a si próprio? Contra si, muitos diriam. Ou seria a favor? Quem sabe da dor de existir, da dor de viver, pode compreender. Não estou com isso querendo dizer que todas as paixões e angústias que vivemos justificam tal ato como sendo a única ou a melhor saída para o sofrer. Porém, nem toda escolha de morte pode ser acusada de feia ou covarde. Cuidemos com o julgamento apressado e baseado numa moral religiosa. O que sabemos a respeito da dor do outro, de sua história, das suas experiências e sobre a herança que recebeu? O que sabemos das possibilidades que lhe restaram frente aos infortúnios e ao mal-estar da condição humana? Quantos já não desejaram cometer tal ato e “fracassaram”? Fracassou-se na prática, na teoria e até em fantasia. A morte é o único acontecimento do qual a experiência não possibilita o conhecimento. É o desconhecido mais verdadeiro, singular e misterioso. Por isso realizar a própria morte é uma ideia insustentável para o sujeito que não está na posição subjetiva do suicida.

Falar da nossa morte também é insustentável desde que a vida só é possível a partir do recalcamento daquilo que põe fim à existência. O limite que a morte impõe ao sujeito dá sentido à vida. Entretanto, o real da morte precisa ser denegado e aparecer para o sujeito como um mistério. Exceto pela filosofia, mas, principalmente, pela estética, que vem para falar dessa, pelo menos desde o início da modernidade, a partir de uma visão romântica, do lugar do belo através da literatura. E da ciência, que está sempre ousando ao redor da morte como para enfrentá-la ou despistá-la, adiando sua chegada inevitável.

Nesse sentido, a morte, nos tempos atuais − na “sociedade da alegria”, onde toda felicidade está à “mão”, parecendo poderem ser compradas a beleza, a juventude e o controle dos afetos que a asseguram − apresenta-se como um assunto a ser escamoteado. A morte passa a ser interdita, o seu tom a ser o da vergonha e do fracasso. O sujeito que morre ou se encontra a beira da morte fracassa na conquista da juventude, da eternidade, se torna feio ou velho, traz no corpo a marca do limite, do tragicamente humano. Tudo que não é vida significa tristeza, infelicidade. A ideia de vida na cultura está associada à felicidade, alegria, harmonia. Muitas vezes, o parâmetro usado para medir o quanto uma pessoa vive está associado ao quanto ela é feliz, e isso significa o quanto ela é bela, rica e viaja para lugares considerados incríveis. Ou o quanto ela tem o poder de “fazer o que quer”, ou ainda se tem uma família com filhos lindos e saudáveis como a mídia nos apresenta nos comerciais de margarina ou produtos de limpeza domésticos. Os meios virtuais, em sites como o do Orkut, demonstram que a maioria dos membros representa suas vidas como alegres e perfeitas para assim se sentir parte dessa sociedade. E o mesmo também ocorre em sites de realidades simuladas como o Second Life onde as pessoas se projetam em personagens, imagens ideais, mas vivem suas vidas em frente a uma tela de computador.

Portanto, a pessoa triste, que se apresenta infeliz ou que não “aproveita a vida”, é considerada mórbida, vive em estado de morbidez, está relegada a um lugar mórbido. Assim, ao redor do tema da morte outro tema se produz, relativo a uma posição de “morte” em vida, um lugar também de exclusão. Dá-se aqui, então, visibilidade para esse lugar de vida que pretende imitar a morte. Apresento essa ideia na “pele” de um termo emprestado da ciência que me parece já trazer incluso em seu significado algo do que já venho elaborando desde minha tese de doutorado: a expressão morbidez.
Porém, não se trata do sentido de morbidez como oposto ao de felicidade. Trata-se de pensá-la como uma vacilação a transpor a linha que inscreve o sujeito no trágico da existência humana. Isto é, um temor de assumir os riscos de suas próprias escolhas, restando-lhe um lugar de submissão a um desejo que não é seu. Uma tentativa do corpo de retorno à estabilidade de um estado zero de tensão. Lugar sem interdito e de uma ilusão de proteção. De uma tentativa de refúgio do mal-estar próprio da civilização e da condição de incompletude do ser um humano. Desde este lugar, arrastam-se correntes, convive-se com fantasmas. Um lugar pesado, só aliviado pelo conforto dos objetos promovidos para que este se retroalimente − desde as drogas ilícitas até os excessos de comida e programas de TV cuja trama busca capturar de todas as formas a subjetividade dos expectadores sedentos por uma conquista imediata do prazer, sem riscos de frustrar-se, fazendo esforço ou no envolvimento com o outro.

Seriam estas as únicas “saídas” para o mal-estar? O ato de tirar a própria vida ou submeter-se às demandas da nossa cultura sobre os modos de ser?

Pela perspectiva da psicanálise se busca mais um olhar para compreender, analisar e se instrumentalizar a fim de romper com discursos homogeneizantes e produtores de morbidez ou de um desejo de morte a ponto do sujeito cometer tal ato. Acontecimentos e palavras operantes realizam um efeito de reviravolta no modo de viver a vida desde a desconstrução e reinvenção da história do sujeito, causando a queda de sentidos e implicando-os em um lugar de enfrentamento e escolha.

Experimentar outros caminhos, outros gestos, formará novas fronteiras, outros limites. Outras paixões e mesmo novas angústias surgirão. Porém, com outras possibilidades de vivê-las, de aceitar-se constituído por uma falta inerente à condição humana. E nesta realidade encontrar uma nova “entrada” para a vida. Conforme Vinícius de Moraes: “Vai, vai, vai, vai”. Só está vivo quem arrisca, quem vai, quem se entrega mesmo com todos os riscos, com toda a dor que comporta a condição do viver. Só assim é possível a alegria e a felicidade das grandes emoções de quem amou, sofreu, chorou...

Complementando Vinícius: Vai, vai, vai, vai VIVER!

ARTIGO POSTADO ORIGINALMENTE EM http://www.portocultura.com.br/moda/index.php?id=55&idNot=6842

2 comentários:

  1. ÁLIBI


    Pequei, Senhor, e Tu bem O sabes!
    Ah, mas pecado nenhum em mim há!
    Pequei, sim, mas se assim O quiseres
    Pecado o fiz porque por ser de carne


    E se me destes um espírito retilíneo
    Juntos, ele e a carne, fizeram a alma
    Esse complicado arco de impulsos
    Que me faz ora santo e ora escravo


    Pequei, Senhor, e Tu bem O sabes!
    E toda vez que pecava contra Ti
    Contra mim mesmo delatava a alma


    Porém, se pequei, também acertei
    Agora, eis-me aqui, tua vil criação
    Aos retalhos pelo bem e pelo mal.


    o Poeta

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  2. Ahhh!Como ficou fácil julgar nos dias de hoje.Apontamos facilmente o dedo. Mas como aquela pessoa, tinha "tudo", como resolveu assim se matar...como mudou assim, era tão feliz espo e alegrava todo mundo. Aí julgamos, condenamos. O que seria esse "tudo". Tudo para uns nada para ele. Para ele um estado de morbidez por mais correto aos olhos dos outros. Apareceram os medos, eram tantos sufocantes, monstruosos...

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