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21 de fev de 2011

"O Discurso do Rei" – UM FILME SOBRE “INIBIÇÃO, SINTOMA E ANGÚSTIA”

"O Discurso do Rei" – UM FILME SOBRE “INIBIÇÃO, SINTOMA E ANGÚSTIA” E, POR QUE NÃO, CONFIANÇA E AMIZADE.

O longa metragem "O Discurso do Rei" (The Kings Speech) parece uma dessas obras primas que se realizam ao olhar da platéia. Foi assim que tive a impressão de estar (humildemente) co-produzindo os acontecimentos e acompanhando o sintoma e o tratamento do protagonista, o rei George VI do Reino Unido.

Baseado em fatos verídicos, o filme trás a angústia e desespero de um jovem príncipe que sofre com seu sintoma: a gagueira.Um filme lindo que vai construindo no decorrer da estória uma identificação do espectador com a angústia do então príncipe e uma emoção a cada encontro com o homem que lhe oferece uma possibilidade de se livrar do seu sofrimento. O filme nos mostra como “Bertie” (apelido familiar) vai lidando com seu sintoma através do trabalho realizado por Lionel, cuja formação nos surpreende ao mesmo tempo que ao novo rei. Lionel circula por várias posições profissionais como as de médico, fonodiólogo, ator e a de psicanalista, com certeza numa imagem muito mais fiel do que aquelas que a rede Globo costuma nos oferecer pelas telenovelas. Um analista que consegue escutar além do sintoma de seu “paciente” e que vai pontuando sutilmente cada traço de expressão que permite aí se fazer uma fissura, um rasgo, um descaminho para o pensamento que vinha viciado numa mesma lógica positivista, cartesiana almejando arrancar de uma só vez a defesa construída com tanto cuidado no decorrer da vida como um mecanismo que o protegia de ser engolido por seu fantasma. Fantasma esse encarnado principalmente na figura do rei, pai de Berti, George V. A gagueira aparece como um furo para a imagem de um príncipe. Imagem essa reforçada pela demanda do pai.
Quem já assistiu ao filme vai lembrar o quão lindo é o momento em que Bertie, já como rei, faz seu primeiro grande discurso, um discurso aplaudido por toda nação onde a grandeza aparece também na apropriação de si enquanto sujeito, na possibilidade de se confrontar com a falha, aceitá-la como constituinte de sua condição humana. O agora rei George VI ao realizar esta preleção “gagueja no W” e diz, ao ser corrigido: “tinha que gaguejar senão não acreditariam que seria eu.” Essa cena do filme é o ápice para quem tem um olhar atento a desconstrução do fantasma de Bertie. Esse momento mostra como ele passa a desdenhar de seu sintoma, trazê-lo pra si como aliado, como um traço que o distingue e não mais o impede. Nesse momento assume uma identidade, mais do que uma cópia, um simulacro de rei, nesse instante ele se torna singular, único. Permite-se ser um outro de si, o encontra entre tantos possíveis que convivem num corpo tão finito quanto mutante.

O que não falta no filme é exemplo de força para ir adiante, buscar, não somente o que tem que ser feito por um destino desde o seu lugar de pertencimento na cultura de seu povo, mas pelo “desejo”, desde o que cada um de nós tem de singular. Bertie teve a possibilidade de uma escuta para o seu desejo e ao mesmo tempo de reinventá-lo diante dos movimentos da história de sua nação entrelaçado a sua própria estória de vida ao enfrentar com coragem seu fantasma e mesmo com temor apostar na possibilidade.

Assim, o filme conta uma estória de dor, coragem e fé em si que só é possível quando há uma verdade naquilo que se busca e é fundamental para a conquista de qualquer desafio, daqueles raros que quando enfrentados lembram o significado de felicidade.

O filme ainda nos trás questões riquíssimas sobre o poder da palavra, da comunicação, da amizade, da confiança, da política e do preconceito que deixo pra comentar com quem quiser abordar também essas questões.

4 comentários:

  1. Belo comentário esse seu Denise. Sabe, quando vi esse filme pouco me interessou o contexto em que ocorreu. Meu foco foi isso que você falou: os fantasmas, a fala como libertação, sobre sobre o poder da palavra, da comunicação, da amizade, da confiança, da política e do preconceito, como você bem disse. Dez anos de análise foram o suficiente para entender certos terrores, fantasmas, que vivi. A historieta é soó um motivo para falar, falar, e se libertar.

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  2. Fico feliz de saber sobre o efeito da análise em vc! : ) !

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  3. Corrigindo. .. fonoaudiólogo e não fonodiólogo.

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