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23 de fev de 2016

Cumplicidades

Imersa numa humanidade de caráter tão violento me percebi surpreendida com um simples acontecimento do cotidiano. Um caso de cumplicidade. Não daquelas que dizem respeito a parcerias na culpa ou responsabilidade por furtos ou outros crimes hediondos nas quais uma dupla ou um grupo se protegem e apoiam para causar medo e obter proteção. Mas àquele tipo de cumplicidade que só recebemos e/ou construímos com alguém que nos compreende, que consegue se colocar no lugar do outro e assim também em nosso lugar. Seja por via de uma cumplicidade egoísta onde os EUs se aliam em função dos mesmos interesses, como a criação dos filhos, por exemplo, seja por algum tipo de cumplicidade narcísica onde um afeto brota por meio de identificações e ideais.
Freud nos presenteou com os conceitos de Eu ideal e Ideal de Eu para compreender melhor as identificações e o amor inerente a cumplicidade. E Lacan nos disse que amar é dar o que não se tem. Isto é, para e pelo amado nos tornamos outro e somos capazes de criar em nós até mesmo novos sabores e cores que condigam com o desejo do "objeto" idealizado.
Eu diria que um amor, quando da ordem de uma verdade, mesmo que sustentado pela ilusão que o caracteriza, atravessa o tempo, viaja para a dimensão do impossível e dá o que de mais precioso há: a vida. Essa cumplicidade no viver ou morrer por amor ao outro, surpreende-me cada vez mais nesse mundo de contrastes, onde facilmente se destrói em nome de um Outro ou de um Deus. Que a cumplicidade, produção do amor, se estenda "ut orbis".

20 de jan de 2016

Ritmo e Melodia: o corpo sob o efeito do significante musical.



Apresentação do trabalho no Congresso Internacional da APPOA - Associação Psicanalítica de Porto Alegre - Corpo , Ficção, Saber e Verdade se encontra em construção. Aguarde texto e vídeo da apresentação no Congresso.

25 de ago de 2015

Um Gesto de Memória


Em tempos de “espetáculo na sociedade”, esquecemos do antigo valor da fotografia. A cada olhadela no celular lá está ela, a “selfie”. A cada evento mil cliques... Passamos por pessoas ou lugares que nos demandam curiosidade ou fascínio e já empunhamos nossa “máquina-phone” e pronto, mais alguns cliques. O gesto fotográfico cada vez mais exercido lança imagens ao vento, imagens lindas, engraçadas, diferentes, algumas nos causam estranhamento, outras tristeza, outras encantamento. Postamos, compartilhamos e queremos nos fazer representar por elas. Elas falam por nós. São tantas e a todo instante que fazemos ou miramos que por vezes esquecemos ou simplesmente não pensamos em um antigo valor daquele ato. Cada imagem guarda e preserva um instante mais rápido que o segundo. Aquele que quando visto nunca mais será encontrado além da sua imagem capturada. A fotografia nos presenteia com essa possibilidade. A de revisitar antigos sítios da nossa “alma”, revisitar afetos, brindar aquela passagem. Como uma música que é capaz de nos remeter a acontecimentos e ao mesmo tempo nos reinventar. As imagens visuais, como as acústicas, também guardam a possibilidade de criação, reinvenção, de nos inscrever em uma nova história. Mudam rumos, constroem destinos. A arte cinematográfica agregando todas essas imagens visuais e acústicas nos leva para essa viagem, muitas vezes sem volta, porque raramente saímos os mesmos de que quando entramos.
Uma volta nem tão grande se fez necessária pra lembrar de que a fotografia é um instrumento de memória. Numa idade ou patologia onde a memória começa a falhar ali está ela, pronta pra contar a nossa história. Um pai que não lembra mais do filho, por exemplo, pode se valer da imagem dos dois no dia do seu aniversário possibilitando resignificar o enunciado “sou teu filho”, ou pelo menos “não sou um estranho”. Mesmo que não sentido, pode ser acreditado. A fotografia testemunha, conta por nós. Que venham muitos cliques... E que nossa memória nos permita lembrar na hora deste gesto o valor de revisitação e reencontro com nós mesmo e com os que já se foram seja da vida, seja da memória.

27 de abr de 2015

Amores perdidos, “Un Cuento Chino”.


Quando perdemos traumaticamente alguém muito querido uma imensa tristeza nos invade provocando uma sensação de que o chão vai nos faltar. Tudo parece sem sentido, como na tragédia vivida por Roberto, personagem protagonizado por Ricardo Darín desde a película argentina "Un Cuento Chino". Colecionando acontecimentos sem sentido a partir de reportagens, Roberto tenta resignificar sua rotina pela cumplicidade de não estar só na desgraça ao mesmo tempo em que se recolhe em seu luto eterno. Ao se deparar com um jovem “chino”, cuja fatalidade é ainda mais absurda, mas cuja escolha foi buscar um sentido pela via da vida e não da morte, Roberto percebe que a vida oferece possibilidades para quem está atento a lógica do encontro. O “chino” neste filme tem uma função de ligar, é um elemento de conexão entre dois mundos distintos, porém ligados por duas ou mais tragédias. A tragédia pessoal de Roberto faz com que o desamparo do “chino” o comova, provocando um movimento que desorganiza sua rotina melancólica.
Enfim, escrevo este pequeno comentário por lembrar hoje da perda de uma querida amiga, pela saudades que deixaram essa e uma estimada prima, entre outros, pelos acontecimentos vividos recentemente por alguns amigos muito próximos e por todas as perdas em suas mais variadas formas. Para cada acontecimento trágico há uma reação singular. Um modo que cada sujeito vai dispor para se manter na continuidade com mais ou menos alegria. A alegria, os risos, a felicidade muitas vezes sucumbem produzindo no lugar mal humor, raiva, vingança. Instalando gradualmente a melancolia. Cada sujeito vai viver sua dor conectada a sua história e a sua ficção. O trabalho da psicanálise é o da escuta, da interpretação e da inserção de um “punto-chino” que convoque o sujeito a um novo lugar. A posição de poder perceber as aberturas, os desvios e os presentes que cada sujeito que a vida levou nos deixou de herança. Heranças simbólicas cuja função só a nós cabe decifrar.

14 de jan de 2015

Síndrome de Pânico ou Neurose de Angústia?


“Eu estava andando na rua e comecei a sentir uma palpitação... não sei porque... eu não tinha tomado café... De repente senti uma vertigem mais forte da que eu costumo ter... Me bateu um baita medo! Medão mesmo! Não fazia sentido... fiquei ofegante, suava muito e procurei um lugar pra me segurar... Um homem mais velho me perguntou se eu precisava de ajuda... Eu me agarrei no braço dele e disse que não estava me sentindo bem. Ele me ajudou e eu sentei no cordão da calçada. Comecei a chorar mas não conseguia largar o braço dele! Coitado! Uma estranha agarrada nele como uma criancinha. Chorei muito! Aos poucos foi passando... Consegui pegar um taxi e ir pra casa. Desde esse dia tenho um pouco de medo de sair sozinha... Tenho medo de sentir de novo o que senti, parecia que eu ia morrer”.

Inicia com uma crise de ansiedade e/ou com pequenas queixas de algumas dores e gradativamente começam a ocorrer episódios de taquicardia, tontura, sudorese, falta de ar, ataques súbitos de pânico. Esses são alguns dos principais sintomas de uma “síndrome” considerada bastante contemporânea. Alguns estudos a consideram típica de um tempo onde o efêmero e o “estresse” predominam nas relações sociais da vida moderna, seja com o trabalho, com as pessoas ou com os objetos. Porém, observa-se que a humanidade, de certo modo, já assimilou e está se acomodando num novo modo de construir uma racionalidade capaz de se adaptar à velocidade das invenções, descobertas e demandas de um mundo onde as novas tecnologias até já deram provas de que não são um “bicho papão”. Isto é, as novas tecnologias como as redes sociais, por exemplo, podem até ser boas companheiras sem necessariamente substituir pessoas e muitas vezes até dependem de uma rede de afetos.

Sendo assim, porque os sintomas continuam? O que faz com que essa síndrome ou como a Psiquiatria a denomina, Transtorno de Pânico, seja tão recorrente na atualidade quanto a Melancolia ou, como segundo a ciência médica denomina, as Depressões?

Recorrendo a Freud para pensar esses sintomas se encontra, já em 1894, um artigo onde esse autor escreve sobre a Neurose de Angústia destacando-a da Neurastenia como uma síndrome específica (Freud, vol. III, 1986). Vejam só, 1894! Ainda no início de sua carreira médica e invenção da Psicanálise.

Freud escreve (p. 92):

“O que denomino “neurose de angústia” pode ser observado numa forma rudimentar ou totalmente desenvolvida, tanto isoladamente como combinada com outras neuroses. Naturalmente, são os casos até certo ponto completos e ao mesmo tempo isolados que sustentam de maneira especial a impressão de que a Neurose de Angústia é uma entidade clínica.”

Destaco aqui alguns dos principais sintomas que Freud (p.92-98) descreve:

• Irritabilidade geral. Uma das manifestações a essa irritabilidade é a hipersensiblilidade ao ruído. “Um sintoma indubitavelmente explicável pela íntima relação inata entre as impressões auditivas e o pavor. A hiperestesia auditiva revela-se frequentemente como sendo causa de insônia, da qual mais de uma forma pertence à neurose de angústia.”

• Expectativa angustiada. “Por exemplo, uma mulher que sofre de expectativa angustiada pensará numa pneumonia fatal a cada vez que seu marido tossir (...) e assistirá à passagem do funeral dele; (...). Naturalmente a expectativa angustiada se esmaece e se transforma imperceptivelmente na angústia normal, compreendendo tudo o que se costuma qualificar de ansiedade ou tendência a adotar uma visão pessimista (...).” Para a “forma que se relaciona com a saúde do próprio sujeito” – “podemos reservar o velho termo hipocondria. O auge alcançado pela hipocondria nem sempre é paralelo à expectativa angustiada geral; requer como pré-condição a existência de parestesias e sensações corporais aflitivas. Assim, a hipocondria é a forma preferida pelos neurastênicos genuínos quando estes caem presa da neurose de angústia, como ocorre com frequência. Outra expressão da expectativa angustiada é sem dúvida a angústia moral” - o escrúpulo e o pedantismo até uma forma exagerada de mania de duvidar.

• Ansiedade. “Pode irromper subitamente na consciência sem ter sido despertada por uma sequência de representações, provocando assim um ataque de angústia. Esse tipo de ataque de angústia pode consistir apenas no sentimento de angústia, sem nenhuma representação associada, ou ser acompanhada da interpretação que estiver mais à mão, tal como (...)” extinção de vida, ameaça de loucura ou então algum tipo de parestesia ou “finalmente o sentimento de angústia pode estar ligado ao distúrbio de uma ou mais funções corporais tais como a respiração, a atividade cardíaca, a inervação vasomotora, ou a atividade glandular.” O paciente “queixa-se de espasmos no coração”, “dificuldade de respirar”, “inundações de suor” ou é mencionado um “sentir-se mal”, “não estar à vontade”, etc.

• Acordar em pânico.

• Vertigem – o solo oscila, as pernas cedem.

• Fobias.

• Atividades digestivas – alternância entre diarreia e constipação, necessidade de urinar.

• Etc.

Observa-se que, em fins do século XIX, Freud já descrevia o que hoje genericamente se compreende como uma das principais síndromes contemporânea. Na maior parte das vezes a relacionando com um modo de vida no qual a velocidade das mudanças provocaria insegurança ao sujeito. Mas quando a vida foi segura? Nas grandes epidemias? Nas grandes guerras? E, quando a morte não foi a única certeza da vida?

Freud neste artigo ainda descreve sintomas menos associados à chamada Síndrome ou Transtorno de Pânico, mas que se percebe clinicamente, na escuta de pacientes, como havendo uma correlação com características e/ou outros sintomas mais típicos, seja na evolução dessa psicopatologia, seja por ocorrerem paralelamente camuflando de certo modo o quadro clínico o que ampliaria o diagnóstico de Síndrome de Pânico para o que Freud denominou de Neurose de Angústia. Como, por exemplo, a chamada Síndrome do Intestino Irritável e a constipação alternada com Diarreia que tantas controvérsias causam na Gastrenterologia acabando algumas vezes por cumprir uma função de alienar o próprio sujeito de um sofrimento psíquico associado a causas relativas a subjetividade do sujeito conforme Freud aponta.

“(...) quando há fundamentos para se considerar a neurose como adquirida, uma cuidadosa investigação orientada nesse sentido revela que um conjunto de perturbações e influências da vida sexual são os fatores etiológicos atuantes. (...) Essa etiologia sexual da neurose de angústia pode ser demonstrada com tão esmagadora frequência que me arrisco, no âmbito deste pequeno artigo, a desconsiderar os casos em que a etiologia é duvidosa ou diferente. (...) será recomendável considerarmos separadamente homens e mulheres.”

E, no caso das mulheres, dois dos fatores etiológicos da neurose de angústia, entre outros, apontados por Freud, seriam a ejaculação precoce e a não preocupação com o prazer da mulher pelo homem. Sendo que o prazer feminino no ato sexual era considerado como uma vergonha para as mulheres (o que ainda persiste no discurso de muitas culturas e famílias). Nota-se que Freud, em 1894, é um jovem médico, um homem do século XIX cuja observação e escuta clínica se ocupava fortemente com a fisiologia do sexo. Na época em que Freud escreve este artigo, o ato sexual que não considerasse também o prazer da mulher, talvez não pudesse ser compreendido pela Medicina como podendo representar para essa um descaso ou desamor do marido, bem como outros significados, por exemplo, a associação deste ato a uma experiência ou fantasia de abandono na infância cuja sensação de rejeição e perda se reeditam. Associações de cada sujeito a serem escutadas, mas em sua maioria o posicionando em um lugar de rejeição, abandono e perda. Ideias essas que aparecem comumente como desencadeadoras da chamada Síndrome do Pânico. Ou melhor seria dizer Neurose de Angústia?



20 de ago de 2014

"O Asasinato da Línga Portugeza"




Estranhando a escrita do título?

Como tudo nesse país, as regras de ortografia de nossa língua mudam sem o povo ser consultado. É mais ou menos esse o novo jeito proposto e que está em discussão na Comissão de Educação do Senado para facilitar a “aprendizajem” da escrita. Que tal?

Assassinar a língua portuguesa já vem sendo uma prática usual na nossa cultura. O empobrecimento intelectual do país serve de base para as novas regras. A proposta diz que visa “fasilitar” a escrita. Se não bastasse “fasilitarem” a passagem de um ciclo ou uma série para a outra, a intenção do momento é adequar o país e sua língua aos maus tratos da Educação, da perda cultural, isto é camuflar o analfabetismo desenvolvido a custa do descaso com o sujeito!

A Educação no Brasil sofre com a comercialização do conhecimento, bem como com o descaso de governos que seguiram e seguem a velha tática do emburrecimento para aumentar o domínio e submeter o povo. As palavras de uma língua, rica herança que nos torna quem somos, que dá o tom ao nosso texto, que produz modos de ser e fazer agora são ainda minimizadas, assaltadas, esburacadas. Como se já não bastasse a última reforma ortográfica cujas transformações muitos ainda se negam a incluir na própria escrita.

Brinca-se o jogo de “Faz-de-conta” usando a imaginação para distrair o tempo, para se manter fora do circuito que torna nossa língua mercadoria e que busca nos tornar reféns e cúmplices de um crime fatal, o da morte do Sujeito Epistemológico, do sujeito do conhecimento proposto por Piaget (1). Conceito este que tem como uma de suas premissas básicas o homem como um ser de linguagem construtor de sua inteligência a partir dessa.

O pensamento simbólico é produzido desde uma capacidade intelectual complexa que nos difere dos animais produzindo novos e sofisticados instrumentos. Descosturar a língua desmantelando as formas de seu corpo que permitem a expressão de pensamentos complexos é o mesmo que submeter o povo a um “samba de uma nota só” sem ser Jobim. É como voltar a era das cavernas. E,nesse ritmo, em pouco tempo estaremos desenhando nas paredes, mas sem ser Picasso.

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(1) Apesar da minha visão sobre a condição do homem ser psicanalítica e nesse sentido basear minha escrita e fala normalmente pelo conceito de Sujeito do Inconsciente, o sujeito freudiano, penso que nesse texto para tratar sobre a idéia referida cabe buscar em Piaget o conceito de Sujeito Epistemológico.

23 de mai de 2014

DITADURA DA SUBJETIVIDADE – Comentários sobre o filme “Les Garcons et Guillaume, a Table!”


A comédia dramática em cartaz nos cines brasileiros “Les Garcons et Guillaume, a Table!” ou Os meninos e Guillaume à mesa! (tradução minha) ou como foi traduzido para o Brasil, "Eu, mamãe e os meninos" se trata de uma obra autobiográfica de Guillaume Gallienne. Galliene, diretor e roteirista desta premiadíssima comédia onde também interpreta magnificamente a si e ao personagem de sua mãe, propõe um enredo dramático surpreendendo ao público pela originalidade do desfecho não só da estória bem como de sua história.
A trama do filme segue o drama vivido. A expectativa social de modos padrões de ser e estar no mundo aprisiona e exclui os sujeitos ao primeiro sinal de inconformidade. Rótulos e receitas comportamentais cada vez mais são prescritos a partir de diagnósticos e avaliações que visam garantir o controle sobre a ordem social. Ditadura da subjetividade. É disso que sofreu Guillaume. Ao primeiro sinal de feminilidade se viu convocado ao lugar da menina que a mãe sofria por não ter tido. A dor deste testemunho parece que o convoca a tentar resgatar o amor da mãe desde este lugar. Como um grande ator encarna o papel, se faz objeto do “Outro primordial” (Lacan, J), movimenta-se pela vida quase como uma menina identificada com a mãe. Busca o reconhecimento e o amor do pai neste papel fracassando também neste lugar. O pai se decepcionava pelo menino que não enxergava. Modo de ser menino na radicalidade do estereótipo era o que definia naquela família o gênero masculino. E deste Guillaume não compartilha.
É nessa lógica que o filme possibilita importantes interrogações sobre a constituição do sujeito e sua sexualidade. E, ainda, sobre os efeitos da padronização do comportamento e generalização dos modos de ser. Ainda me resta uma interrogação desde o finalizar a projeção. Será que na sexualidade descoberta por Guillaume importa mesmo definir uma homo ou heterossexualidade? Ou o que fica de mais bonito e importante da dramatização de sua história é pensar a pluralidade de modos de ser e amar que é possível em cada formação do inconsciente e constituição do Eu de cada sujeito a partir da sua experiência subjetiva?