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4 de ago de 2010

ASPECTOS PSÍQUICOS DA OBESIDADE

PALESTRA REALIZADA 26/08/2009
Agência Central do Banrisul

ASPECTOS PSÍQUICOS DA OBESIDADE

Dra. Denise Mairesse[1]

O que é a Obesidade e o que ela significa para nós? Quando falamos em Obesidade qual é a primeira coisa que nos vem à cabeça? Geralmente a imagem de uma pessoa muito “gorda”. Mas nem sempre a pessoa “gorda”, segundo os parâmetros estéticos da nossa sociedade necessariamente está na faixa considerada Obesidade e/ou sofre consequências a partir do seu peso, sejam elas físicas ou psicológicas. Mesmo a pessoa com uma Obesidade extrema pode não sofrer mais com seu peso do que outros que estão um pouco acima ou que imaginam estar acima do peso. Isto é, existem muitos modos de se “ser gordo” ou ter Obesidade. A questão é que a “ditadura do corpo perfeito” em que vivemos, nos cerca e atravessa de tal forma que é realmente muito difícil se sentir bem fora do padrão. Como psicanalista eu não vou tratar especificamente das co-morbidades que a Obesidade costuma produzir, mas sim das causas e consequências psíquicas.

Para a psicanálise não importa o rótulo Obesidade, o que existe são diversos modos de ser, dentre os quais um sujeito pode se situar, que está relacionado com um acúmulo de gordura no corpo e com todas as causas e decorrências disso.
Então, do que se trata a Obesidade desde o ponto de vista psicanalítico?
Uma pessoa ao ser diagnosticada como Obesa, recebe esse diagnóstico como um rótulo, muitas vezes recaindo sobre ela um estigma que gera a exclusão social, seja na busca de um trabalho ou na escolha de um parceiro, seja uma exclusão causada por ela mesma ou pela sociedade que compreende o sujeito com Obesidade como aquele que “não tem força de vontade”.

Mas será que a Obesidade começa quando é diagnosticada e/ou quando a pessoa se percebe “gorda”? Serão as complicações psíquicas geradas somente pelo fato da pessoa ser ou se sentir acima do peso esperado? Quando instalada a Obesidade, é claro que o excesso de gordura na maioria das pessoas causa sim, no mínimo, um desconforto. Podendo significar até a exclusão total nas relações sociais. Frequentemente o sujeito evita expor seu corpo, colocar roupas que lhe marquem as formas, evita um traje de banho, evita o relacionamento sexual e em alguns casos se torna solitário e triste, podendo chegar a casos de depressão, fobia e pânico. Outras vezes, o sujeito se coloca como aquela pessoa sempre alegre e divertida, o amigo de todos, não se excluindo socialmente, porém de algumas experiências e realizações que deseja. Ou poderíamos nos perguntar: não seria justamente para se excluir que se engorda? O que faz com que um sujeito necessite de um corpo obeso, o que faz com que não consiga dar limite a sua compulsão pela comida, seja doce ou outro alimento que para ele signifique algum modo de aconchego e prazer a ponto de torná-lo obeso? Isto é, porque algumas pessoas precisam se fazer engordar, que tipo de mecanismo está envolvido aí? O engordar pode, em muitos casos, servir ao sujeito como uma defesa inconsciente, o que ele quer evitar? Fazendo e respondendo a essas questões podemos trabalhar contra a compulsão. E a resposta é diferente para cada sujeito que vive essa experiência. Mesmo que a Obesidade compreenda algumas características que se repetem em grande parte dos sujeitos, sempre deve ser observado o significado dessa condição para cada um. A diferença principal está em como foi produzido esse sintoma.
Para entender isso temos que nos remeter a constituição do Eu. Isto é, como em cada um de nós é formada a imagem de si. Aquela imagem que olhamos e enxergamos no espelho.

A Obesidade, na maior parte dos casos, está relacionada com a constituição da subjetividade nos primeiros anos de vida, mesmo nos casos em que a compulsão se manifesta a partir da adolescência ou mais tarde.
Entre outras diversas razões singulares, observa-se que, nesse momento inicial da vida em que o bebê chora para expressar algum desconforto, é a mãe ou quem faz a função materna para o bebê que vai aos poucos nomeando o que ele está sentindo. Por exemplo, o bebê pode estar com cólica, frio, molhado e, ao interpretar o choro do seu bebê, a mãe também vai criando um laço com ele e com aquilo que ela vai decidir que lhe dará conforto. Muitas mães interpretam mesmo o chorinho de frio como fome. Assim, o bebê ao se sentir aconchegado com o alimento e com o colo da mãe pode parar de sentir o frio e ao mesmo tempo reforçar para essa a idéia de que chora por fome, aprendendo a buscar no resto de sua vida o aconchego pelo alimento, principalmente os que são à base de leite ou do que foi preferencialmente alimentado enquanto criança. Uma criança que recebeu alimentos mais doces nesse momento de sua vida terá provavelmente uma preferência por esses, pois o significado do doce está relacionado a segurança. Portanto, esse momento inicial da vida comporta um sentimento de proteção em função dos cuidados que o bebê idealmente costuma receber. O desejo inconsciente de permanecer em uma posição ilusoriamente segura, a do bebê protegido pela “mãe”, faz com que o sujeito crie uma defesa. O inconsciente lança mão de uma força muito poderosa para mantê-lo assim. É a compulsão, ou melhor, uma força chamada pulsão que busca resgatar durante a vida essa experiência idealizada.

Na Obesidade duas forças principais atuam nesse sentido.
A pulsão oral, que tem sua fonte de prazer principal na boca e, respectivamente, estendendo-se a todo o sistema digestivo (porque senão bastaria manter o prazer na boca, como outras drogas o fazem) e por isso na Obesidade percebemos também o prazer, mesmo com sofrimento, ao se sentir “estufado”. E, a pulsão escópica, cujo órgão principal que a sustenta é o olho. Ouvimos falar: “come por olho”, “o olho é maior que a barriga”, etc. Mas, mais do que o olho, é o olhar que está em questão. E não só o olhar a comida, porém o olhar sobre o seu corpo. Como a pessoa se olha no espelho quando se sente gorda? Não quer olhar, não deseja olhar, tem vergonha, se acha feia, disforme da forma esperada socialmente na qual está incluída e, então, come mais! Em outros casos, olha-se dialogando com a sua imagem no espelho, entrando em um acordo, enxerga-se a partir do que é suportável relativo a um ideal desejado. Porém, ao se olhar no mesmo momento em uma fotografia dificilmente não se decepcionará, pois a imagem congelada não sustenta o diálogo. Assim, resumidamente, essas duas pulsões tratam de manter o sujeito nessa posição, agarrado ao seu sintoma.
A “esperança” é a de que, um limite que não foi construído internamente em relação à alimentação, pode ser construído em um tratamento.

TRATAMENTO

Ouvimos muito falar na necessidade de mudar os hábitos. Sim, é importante, mas mudança de hábito é, num primeiro momento, através da dieta, construir um limite externo, o que tem um prazo de validade, dura o tempo do entusiasmo, o tempo em que o sujeito consegue emagrecer e se olhar no espelho. Mas como fazer com que ele sustente esse olhar? Junto a esta mudança, aos exercícios físicos e a dieta alimentar, deve ser construído um limite interno, aquele que vai desconstruir a compulsão, fazer ela menos necessária. Possibilitando deste modo que o sujeito se depare com a marca do feminino e/ou masculino de seu corpo, olhar-se no espelho, expor-se espontaneamente à câmera fotográfica, sem a necessidade de se excluir. É a isso que se propõe o trabalho psicanalítico.

12 comentários:

  1. Adorei o texto...
    Mas existe ainda uma causa psicológica para manter-se obesa apesar de fazer dietas?
    Não sei mais oq fazer...
    Mesmo seguinda à risca o cardápio da nutricionista não consigo eliminar nem 100 gr...
    É desanimador!!!

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  2. Bem... seria o caso de consultar um médico... Alguns fatores endocrinológicos devem ser analisados. Se vc já fez isso... não se descartam os modos de se boicotar a dieta ou de até mesmo se manter no mesmo peso quando este é um sintoma de defesa para o psiquismo... Mas não desanime e sim busque ajuda!

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  3. Como seria possível ajudar o paciente a se deparar com o masculino e feminnino???

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  4. Oi, Thais. Cada sujeito é um sujeito, porém, segundo Freud nascemos bissexuais, isto é, com o potencial de construirmos o feminino e o masculino... Escute o paciente... Na fala ele vai se constituindo enquanto sujeito... construindo sua sexualidade.

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  5. "Em outros casos, olha-se dialogando com a sua imagem no espelho, entrando em um acordo, vendo-se a partir do que é suportável relativo a um ideal desejado. Porém, no mesmo momento, caso se enxergue em uma fotografia, dificilmente não se decepcionará, pois a imagem congelada não sustenta o diálogo". Isso realmente é um fato!
    Difícil é saber que esse comportamento resulta das atitudes do passado, realizadas quase sempre pelas mães que, acredito eu, buscam apenas o conforto do filho.. como o ser humano é impressionante!
    Mas doutora, pra mim que sou totalmente leiga em psicanálise e psicologia, permanece a dúvida: como construir esse limite interno? Autoconhecimento? Resgatar os acontecimentos passados? Buscar a compreensão do porquê o alimento é um prazer?
    Nunca havia lido nada acerca deste tema, mas me chamou bastante atenção, devido, talvez, às incontáveis tentativas frustradas de alcançar a imagem ideal e à nova esperança dada pela sugestão da doutora. A doutora teria algum livro como indicação para eu me aprofundar um pouco mais nesse assunto?
    Desde já agradeço e aproveito para parabenizá-la pelo blog.

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  6. Izabel... não necessariamente é uma "realização da mãe...", mas é relativo a esta interação e interpretação do bebê também às demandas externas.Gostaria de te dar todas as respostas... difícil aqui até porque cada sujeito tem a sua própria questão em torno do seu sintoma. Um modo de construir esse limite é poder lidar com a "falta", com os limites de modo geral. Para isso,interrogar-se sobre o significado do alimento pra vc, já é um bom começo. Tb acho a idéia de poder tratar esse assunto em uma análise bem importante. Não somente para resgatar o passado, mas principalmente para desconstruir alguns fantasmas que acompanham e recontar a própria história.
    Muito obrigada pelo elogio ao Blog! Fico bem feliz em poder escrever livremente minhas idéias e também dialogar com os interessados nos temas. Abr., Denise.

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  7. Ola a todos.
    Dra. gostaria de saber: se existe um diagnostico de obesidade, habitos e costumes exagerados, sociedade limidada a favor dos mesmos, familia , amigos e o eu proprio de cobranças, cobranças e cobranças...
    O que fazer?
    O ato de exageros alimentares que se correlacionam com a afetividade do passado, por exemplo: abuso sexual, carencia afetiva materna etc...
    O que a psicologia pode fazer?
    O aconselhamentos é bom, valor proprio e autoestima tambem, inclusão na sociedade, romper limites em beneficio proprio, contrução de uma identidade passificadora, adoravel e amada...
    Onde esta o limite da psicologia, em alcançar exitos, mesmo com tantas vitorias em diferentes assuntos que resumem em um somente, porem limitado nos sucessos pessoais.
    Se a psicologia ja não ajuda, o eu chegou ao "extase", porem a obesidade nao logrou vangloria....
    o que fazer???

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    Respostas
    1. Olá... tua pergunta é grande e parte dela está no texto... Mas sim, pode fazer... Trabalho na clínica desde a história individual de cada paciente e o trabalho é a partir do seu discurso o qual "responde" a uma demanda do Outro. Pela fala e pela escuta desmanchamos o fantasma fundamental e assim o sintoma é menos necessário... Só fazendo a experiência pra saber se o caso em questão pode seguir a direção de uma "cura".

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  8. O que é comida pra mim? Imediatamente veio a resposta... companhia. Ao mesmo tempo em que estou descontente com meu aspecto físico, sinto 'conforto' por estar assim, como se comigo 'nada fosse acontecer', pois ninguém 'atenta contra um gordo', mais ou menos neste sentido. Pode esclarecer o que é isso???

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  9. Prezada Dra.Denise,
    Muito bons seus artigos e os uso como material de apoio nas compreensão de alguns casos que tenho na clinica. Estou com paciente novo muito angustiado com seu próprio corpo.
    Vc teria algum indicação de uma literatura no qual retratasse a obesidade dentro a ótica psicanalítica?
    um abraço
    Christiane Bressan

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  10. Obrigada, Christiane. Desculpe a demora em te responder. Somente hoje consegui retornar ao Blog por problemas técnicos. Te recomendo a minha Tese... "Condição de Morbidez: uma vacilação ao trágico?" http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/15854/000692922.pdf?sequence=1 Um abraço, Denise.

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  11. Sinto uma tristeza enorme ao me ver tão linda e obesa. Sinto-me perdendo tangas oportunidades, tantas vivências. Sou tão inteligente e mal posso usa-la ao meu favor. Desde os 7 anos comecei a ganhar peso. Houve sim uma grande oferta de alimento para suprir ausências maternas (trabalho, conflitos) mas minha mãe nunca seria responsável por isso. Tenho 28 anos. E nunca consegui me olhar com ternura. E sim como uma gorda q serve para ser amiga. Tive 20 anos para mudar meu corpo, me ver satisfeita fisicamente, me sentir mais aceita, mas não o fiz. Eu me responsabilizo. Não me culpo. Mas queria tanto ser "normal" entre as outras pessoas 'magras'. Deixo de comparecer q reuniões familiares pois sei q serei o grande foco. A frustrada ..não quero um corpo atlético e sim algo que não chame atenção negativamente. Sou ótima profissional, ótima pessoa. Mas não consegui me resgatar. Caso alguém tenha algo positivo a dizer estou aberta para refletir sobre. Um abraço. Ótima noite.

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