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20 de mar de 2014

Meu Corpo, Minha História e Minhas Estórias...



Quando começo a escrever ou desenhar me deparo com a página/folha/tela em branco. Esse é o momento em que respiro profundamente e penso: há que se ter coragem de seguir. É no seguir que a folha se preenche, que as letras formam palavras, que os traços criam formas. “A vida continua” como diz a expressão popular tão bem colocada no filme “Elle s’en va” ou na tradução “Ela Vai”. Lindo filme sobre o cotidiano, sobre a mulher, sobre a paixão, sobre as relações familiares e amorosas. Lindo filme de se ver e de contar. E,assim, também de escrever. Catherine Dorléac ou “Deneuve”, nome de sua escolha, interpreta Bettie, uma bela mulher de classe média que entra na “terceira idade" vivendo uma grande frustração amorosa. Como não poderia deixar de ser a platéia está lá para ver Catherine, para ver essa bela mulher, essa bela atriz no auge dos seus 70 anos. O que pode uma mulher na terceira idade, que corpo lhe resta? O que é possível para seguir a vida?

Bettie, depois de deixada pelo seu parceiro por uma moça grávida dele com a idade de sua filha, encontra-se humilhada no seu próprio corpo. Um corpo que não gera mais filhos, que está marcado pelo tempo. Mas também um corpo marcado pela história, pela singularidade de ser aquela mulher, aquele sujeito cujo tempo o inscreveu numa lógica onde a escrita subjetiva diz do quem se é, do quem se deseja ser, do que se deseja. É na ordem desse desejo que escrevemos nossa história e que desenhamos nossa forma. Não é privilégio da mulher e nem mesmo da mulher com mais idade perceber as inscrições do tempo e da vida no corpo como uma certa perda ou estranheza e não raras vezes com deslumbramento. Os homens também sentem. A virilidade atribuída aos homens pela força muscular no tempo e espaço onde o caçar significa poder encontrou um forte lugar no imaginário masculino de que esse corpo vale pelo seu poder. Alguns homens, dentre infinitos modos de se reinventar, compensam a perda muscular pelo dinheiro ou pela inteligência para sentirem-se viris. As mulheres enfrentam um desafio maior para se manterem femininas aos seus próprios olhos e ao olhar do Outro, pois não basta a inteligência e, o dinheiro, ainda, pode ser um elemento que produz o masculino.

Em um encontro com um jovem Bettie teme por sua imagem. Teme pelo ridículo. O jovem a deseja pelo que seu corpo encobre e revela ao mesmo tempo. Esse corpo materno, terno, de uma mulher que poderia ser sua mãe, o intriga e o provoca. Curioso por essa bela mulher a elogia do modo mais estúpido e corriqueiro que se costuma testemunhar. Pronuncia algo como: “ficava imaginando como era o seu corpo quando você era jovem. Devia ser linda...” Por aí... No passado. O suficiente para remetê-la a uma viagem às memórias, ao corpo de jovem e confirmá-la no lugar de um resto.

O corpo, lugar da inscrição do sexual, pulsa para além do real de suas vísceras e pele. Pulsa vida, pulsa subjetividade, inscreve, corta e recorta, copia e cola, costura, debruça-se, dança, canta, toca e é tocado. Sente, vibra, desenha, pinta e colori. Cada corpo conta uma história, cada corpo faz história e estórias o tempo todo. Basta estar e seguir “de neuve”.

4 comentários:

  1. Maravilhosa colocação,dra Denise!! O comentário mexe com o emocional e desperta a vontade de assistir o filme. Parabéns pela bela fluência e objetividade. Grande abraço,Emeri

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  2. O grande desafio da terceira idade talvez seja transcender à incompreensão da imponente força do tempo. Somente assim será possível ousar voar até o ninho da realização pessoal, com asas livres
    a se abrirem sobre o mundo todo imaginário de cada um de nós. Aí, com a esperança equilibrista dançando na corda bamba de sombrinha, vem despertar a rainha vida e fazer-se acima do sempre, sabendo que somente a arte de saber ser maior que o momento permite-nos sonhar sem fim, eternamente
    . Um beijo. Luís Mauro Vianna

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  3. Obrigada, Emeri! Fico muito feliz que tenha gostado! E obrigada, Luis Mauro! Lindas palavras! Beijo grde!

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